by livraisse

Uma parte de mim sempre duvidou de que eu seria capaz de manter isso por mais de um mês, é sempre assim. Eu estive de férias e não escrevi absolutamente nada publicável, como o que é publicado aqui se restringe a livros, absolutamente nenhuma palavra fora escrita sobre nada que li nos últimos dias (no último mês).
E eu admiro muito quem consegue ser tão aplicado a ponto de se cobrar e conseguir fazer com que saia algo lindo disso, mas eu ainda estou tentando. Eu achei que as férias me trariam um sossego que há tempos não sentia e até que trouxe, no começo, mas aí eu comecei a notar o quanto eu deveria me esforçar pra conseguir algo melhor no ano que vem, e isso fez com que a a pressão surgisse de novo, mas não vou falar só disso, eu meio que dediquei as minhas férias a uma distração infalível: séries. E digo séries televisivas, não de livros, há tempos eu não via tanto como vi nesse último mês. Tudo que comecei, terminei (ou pelo menos estou à par do lançamento semanal agora), e eu queria escrever sobre tudo que vi nesses últimos tempos, sobre tudo que li e sobre tudo que eu gosto de falar, mas isso seria incrivelmente grande e pretensioso, então o começo exageradamente longo pra um período em silêncio ainda maior se deve à essas coisas que eu já disse e à essas que eu deveria ter dito antes.
Aqui vai uma lista de coisas que vi e li nesses tempos, não se se tudo porque não posso cobrar uma memória muito boa e não quero tirar o especial de cada um.

férias

O começo das minhas férias de Julho foi com Kill All Enemies, escrito por Melvin Burgess, um livro que conta a história de três adolescentes (com a narrativa por capítulo na visão de cada um) problemáticos. E eu digo problemáticos eufemizando o tamanho dos problemas, de verdade são pessoas com problemas de autoestima, descontrole e ódio, nada terrivelmente novo na vida de um adolescente, mas com problemas pessoais reforçando cada uma de suas fraquezas. Quando eu comecei a ler esse livro, me lembro de ter esperado mais. Não sei mais o quê, exatamente, mais ação provavelmente não, mais drama também não deve ser, mas mais alguma coisa. Eu nem me lembro mais em como cheguei nele, como despertei o interesse por esse livro, no fim das contas gostei e achei o final interessantíssimo, mas uma parte de mim esperava algo diferente. Talvez isso, diferente das minhas expectativas, e não menor.

Depois fui para Sergio Y. Vai à América, escrito por Alexandre Vidal Porto, que se mostrou um livro único. Fui ler pela primeira vez algo relacionado a esse livro no blog Livros Abertos e isso fez com que surgisse uma urgência em mim: ler esse livro o mais rápido possível. Alexandre Vidal Porto compôs uma história real e contada de forma absurdamente sincera, na visão de um psiquiatra reconhecido que tenta entender como Sergio Y., um jovem de dezessete anos que passou por seus cuidados médicos e o dispensou, teve a vida que teve e ainda se sentiu agradecido pelo psiquiatra, mesmo que ele nunca tenha entendido de verdade o que fez tanto para o rapaz. De uma forma simples e muito bem escrita, nos mostra o caminho da mente humana, como as sensações estão ligadas com o resto do nosso corpo e como tentamos nos recompensar quando algo que fazemos está certo, mas como ficamos sem chão quando não sabemos exatamente como guiar ou como ter guiado uma pessoa, uma vida.

E então eu saltei para Laranja Mecânica, escrito por Anthony Burgess, com uma narrativa cheia de neologismo do próprio autor, que jamais autorizou nenhum dicionário, é uma história bastante conhecida por seu filme homônimo, dirigido por Stanley Kubrick. Eu sabia o que esperar do livro, obviamente, mas ler os acontecimentos, imaginar cada passagem e o sentimento disso é diferente de ver, obviamente, o que me forçou a continuar. É um ótimo livro, lê-lo só me fez ter ainda mais certeza de que Kubrick dirigiu – novamente – outra obra literária brilhantemente. o Alex do livro é tão doentio e infantil que chega a parecer exagero a idade que ele tem, os pensamentos que ele nos narra são de todo uma loucura sórdida e o desejo que ele tem em ver o mal acontecer, em participar disso. Quando se propõe à cura, ou quando se diz arrependido, em todos os momentos o convencimento que ele cria sob ele mesmo, de que ele é o rei, se sobrepõe. Uma distopia perturbadora até, mas incrivelmente bem escrita.

Novamente fui para à literatura nacional, indo para A Maçã Envenenada, escrito por Michel Laub, o segundo da sua trilogia de efeitos psicológicos provenientes de uma tragédia/catástrofe, o primeiro sendo Diário da Queda (lido, mas nunca resenhado). A Maçã Envenenada tem como plano de fundo um show do Nirvana no Brasil em 1994, apesar de ser contado de um futuro incerto, passando por diversos momentos da vida do personagem principal não-nomeado, que na época do show vivia um romance com Valéria, uma jovem com seus exageros e particularidades, mas também vivia sua vida interrompida por um chamado do governo, no qual fora destinado a ser militar. Indo por uma linha que não segue o ritmo cronológico, passando por uma leve biografia de Kurt Cobain, vocalista do Nirvana que cometeu suicídio um dia antes de Immaculée Ilibagiza ser obrigada a abandonar sua vida e viver num banheiro por noventa dias até o genocídio de Ruanda cessar. Um com tudo para ser feliz, mas completamente insatisfeito e atormentado, a ponto de tirar a própria vida, e outra com tudo para não dar certo, mas superando todos os obstáculos de forma vitoriosa. Michel Laub nos conta essas histórias em meio ao desenrolar de Valéria e o narrador e essa é a parte mais genial do livro, o fato de terem havido outras histórias dentro de uma vida, dentro de fatos que marcaram a adolescência de um rapaz comum. Uma história muito bem contada e já estou quase adepta ao jeitinho Michel Laub de narrar – um ótimo jeito, pelo visto.

Indo para uma quase biografia, que tá mais para uma narrativa incansável de acontecimentos importantes dos últimos semestres no cenário mundial: Os Arquivos Snowden. Eu tenho um carinho imenso por Edward Snowden, por isso meu interesse em ler este livro sempre existiu, até que eu não pude resistir e o trouxe pra casa (eu poderia falar muito desses motivos, mas estou me controlando). Luke Harding nos conta a verdadeira história por trás dos noticiários de julho de 2013, o rosto e a vida por trás do delator mais procurado do mundo moderno, passando por momentos importantes da vida de Edward Snowden, nos mostrando o seu relacionamento com a família e a namorada – agora deixados para trás na sua antiga terra – e como tudo que aconteceu antes da revelação, acabou o convencendo que a saída era a sinceridade, afinal, quem quer viver num mundo vigiado 24 horas por dia? Contando com a ajuda de um jornalista autoexilado no Brasil, Gleen Greenwald, e com o jornal britânico, The Guardian, acompanhamos o trajeto dos pen drives com informações secretas da NSA e provas que eles haviam tido acesso à muito mais do que só assuntos protecionistas, mas também assuntos privados de países amigos. Nos mostra como um jornalismo sério pode nos ajudar ao mostrar-nos a verdadeira face de algo que nos vigia.

E, para não ficar um vazio enorme em séries que acompanhei nos últimos 50 dias (me dei conta que já faz tudo isso, ugh) aqui vai a melhor série que eu já vi: Breaking Bad. Acho que não é um nome novo pra ninguém, afinal, uma série com tanta qualidade teve reconhecidos prêmios, fãs e publicidade, mas foi nova pra mim, apesar de sempre ter ouvido falar, nunca realmente havia despertado meu interesse e – talvez – só tenha vindo a me intrigar de verdade (ou a fazer com que eu tivesse consciência de que, sim! eu veria a season finale desta série, que não seria uma daquelas começadas-jamais-terminadas, lá pra segunda temporada. Me desculpa Vince Gilligan, agora reconheço a maestria de cada um dos episódios) quando minha amiga disse pra eu ver. Aí foi o fim, ou melhor, o início da minha nova fase de séries extremamente bem produzidas e com uma qualidade que eu tenho raiva e inveja. Não vou falar muito dessa série porque o medo de dizer algum spoiler a qualquer um que venha a ler isso é enorme, então vou dizer o básico. Metanfetamina, a praga dos Estados Unidos, o crack norte-americano. Um professor de química com um filho e uma esposa grávida. Um câncer no pulmão. Um ex-aluno viciado em drogas. O tratamento quimioterapêutico absurdamente caro. Metanfetamina pode ser feita em laboratório.
Uma história brilhante e que fora esculpida de forma absurdamente genial, de verdade, uma das melhores coisas que eu já vi, a melhor série. A profundidade dos personagens, a sensibilidade e o sangue frio de cada um. A dor e o talento estampado no rosto de cada pessoa que se envolveu com esta série. Brilhante, de verdade. Foi um tempo gasto exclusivamente para sofrer – e como sofri vendo isto – e me admirar com o brilhantismo do roteiro e das atuações. Esta é a maior indicação daqui, sem dúvidas. O que mais mexeu comigo (e mais recentemente também) e o que mais me comoveu. Por favor, se alguém leu até aqui, dê uma chancezinha a essa série.

E eu juro que tentarei ficar aqui, mais por um desafio pessoal do que por qualquer outra coisa. Eu gosto de escrever isso aqui e muito mais, mas é essa parte que consigo divulgar sem neuras, então espero que assim continue por muito tempo.

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