como dizer adeus em robô

by livraisse

como dizer adeus em robô

Escrito por Natalie Standiford. Editora: Galera Record; 339 páginas. Traduzido por Fabiana Colasanti.

Escrito por Natalie Standiford, Como Dizer Adeus em Robô me surpreendeu de toda a forma possível. Comprei em uma das vezes que fui comprar um presente e o meu ego se sentiu na necessidade de me dar um presentinho, aí surgiu pelo correio com uma capa incrível e acabamentos em um rosa maravilhoso. Eu não sabia onde colocar aquele livro depois que minha estante fora construída e se mostrou tremendamente inútil na tarefa de guardar todos os meus livros, aí o coloquei junto com os meus favoritos. Não estava esperando um livro bom – ou ruim – porque eu não estava esperando nada. Um dia, depois de ler O Lobo da Estepe decidi que precisava ler algo leve e que me deixasse presa na história, por algum acaso, o peguei e comecei a minha jornada pela vida de Bea e Jonah (que, admito, durou pouquíssimo, li o livro em horas).

Nunca tinha ouvido falar da Natalie nem do seu livro. Verdade! Nenhuma resenha nem nada. E olha que eu sou uma viciada por resenhas. Mas eu acho que foi melhor assim, nenhuma palavra sobre um livro que realmente tirou as minhas. Antes de começar a resenha – hoje eu estou completamente para digitar, me desculpem! –, tenho que dizer que essa edição da editora Galera Record é incrível. Sério. Tem muitas capas, títulos e diagramações por quais sou apaixonada, mas essa é maravilhosa demais para não ser dita. Fora o aspecto lindo do livro, Standiford conseguiu colocar numa história com um pouco mais de 300 páginas uma história incrível com as medidas certinhas de melancolia e graça, me fez sentir vontade de rasgar o livro quando eu o acabei. Mas leve isso como um elogio.

Beatrice é uma jovem de dezesseis anos que tem uma forma muito infantil, fora criada pelos pais que estavam sempre em constante mudança de cidade. Talvez por isso que Bea não tem amigos, talvez por isso que tenha aprendido a se controlar tanto, a ser tão fria. Sua mãe – e única amiga – a chama de robô, uma garota sem sentimentos feita na verdade de metais e ligações elétricas, apesar de Bea se incomodar com isso, acaba acreditando que a melhor forma de se dar bem na vida é mantendo essa certa distância das pessoas, sendo fria e tentando controlar as coisas.

Quando a família de Beatrice se muda e ela tem de encarar o último ano em uma escola particular, se vê sozinha. Sua mãe já não está mais nos eixos, chorando por qualquer coisa, colocando galinhas por toda a parte. Obcecada o tempo todo e sempre à um triz de explodir. Bea vai à escola e segue o seu cronograma monitorado e esquematizado, falando pouco e com saudades da rádio da cidade anterior. Logo no primeiro dia ela conhece Anne, filha de um professor universitário – como o seu pai – e ela conta brevemente a história do Garoto Fantasma, ou Jonah.

Jonah fora apelidado como Garoto Fantasma na sétima série, a brincadeira era levada tão a sério que fizeram um funeral para ele, o motivo, assim como todos os motivos para apelidar alguém, são tolos e cruéis. O menino cresceu sozinho e às vezes ouvindo “Ah Um f-f-f-fantasma” quando passavam ao seu lado. Bea acha tudo isso uma crueldade e acaba cumprimentando o menino que, como gratidão (ou carência) apresenta à ela um mundo totalmente novo. Night Light Show é um programa de rádio que apenas uns velhos e Jonah conhecem, as pessoas ligam para lá e conversam com Herb – o locutor –, reclamam um pouco, ouvem umas músicas e vão dormir. O programa de rádio os une de uma forma fraternal, Jonah diz não querer uma amiga nem nada de Bea, mas há alguma coisa nisso, um universo de mistério por baixo de cada um dos personagens. Jonah perdeu a mãe e o irmão gêmeo e deficiente em um acidente de carro, por isso o fantasma não é ele, ele é irmão de um fantasma. Seu pai e frio e não demonstra qualquer tipo de carinho por Jonah, nem consegue se mostrar triste pela perda da mulher e de um filho. Ele é apenas um rico bom advogado.

Como eu já disse, foi um livro que eu realmente gostei. O fato de Beatrice ser tão fria, controlada e confusa, por Jonah ser tão cheio de carência, saudades, mágoa e raiva; eu não sei exatamente o porquê. Nenhum personagem nos é apresentado de forma completa, não há um conhecimento total, é como um eclipse parcial, não conseguimos enxergar a totalidade de nenhum de seus personagens, nem dos excêntricos do Night Light Show, nem da nossa narradora-robô. E, devo dizer, que talvez tenha sido isso que me chamou a atenção, o fato de não ter sido oferecido de bandeja personagens detestáveis e reais. O fato de ter reconhecido muito nos piores traços de Bea, ou ela ter reconhecido em Jonah seus traços. A semelhança contrastando um universo complexo de diferenças. Um amigo que nunca esteve ao lado de Jonah ou de Bea, mas que conseguem se encaixar de uma forma confusa. Nenhum dos dois é um cabeleireiro islandês, mas eles tentam chegar à alguma coisa próxima disso.

Os dois mudam um pouco os hábitos, nenhum sabe exatamente como é ter um amigo, mas juntos vão aprendendo e moldando a realidade que são obrigados a viver. O fim é heart-breaking. Poucas vezes vi um fim tão duro e cruel quanto esse. Genial, mas cruel. O mistério de Jonah que faz com que ele seja mesmo uma espécie de fantasma, Bea sai da sua concha dura e impenetrável para um mundo doloroso. Ela nunca será uma cabeleireira islandesa, mas também não é uma garota-robô. E esse é o ponto principal. Pena que Jonah ainda se coloque como Garoto Fantasma. Mas isso acontece na vida real. E é por isso que não somos cabeleireiros islandeses – as pessoas mais felizes do mundo –, mas estamos sempre tentando. Natalie Standiford escreveu maravilhosamente e, apesar do seu fim destruidor, a vida real é assim. Dói, mas é incrível.

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