barba ensopada de sangue

by livraisse

barba

Escrito por Daniel Galera. Editora: Companhia das Letras; 424 páginas.

Depois de tanto ansiar pela leitura de Barba Ensopada de Sangue, escrito por Daniel Galera, termino uma semana com um livro incrível e que me foi demorado a digestão. O livro foi um dos mais comentados de 2012 e, atualmente, há traduções em várias línguas. Daniel Galera conseguiu escrever um livro que não nos fala nem o nome do personagem principal, dosando – incrivelmente – entre o mistério e a angústia, nos mostrando uma porção de personagens reais e imersos em defeitos.

O personagem sem nome é chamado quase o tempo todo por nadador, antes de mudar-se para Garopaba e entrar num isolamento geográfico e psicológico, o seu pai o avisa que irá cometer suicídio, não o faz para ser impedido, entre conversas e tentativas de entender o porquê disso, o pai do nadador conta a ele a história nunca antes contada sobre o seu avô, morto numa pequena cidade litorânea de Santa Catarina e faz somente um último pedido: que sacrifique a sua cachorra Beta. Deixando os problemas para trás com o irmão, a cunhada e a mãe, muda-se para Garopaba, cidade onde o avô fora assassinado anos antes, quando ainda era uma vila de pescadores, com a cachorra Beta, descumprindo o último pedido do pai. Sozinho em Garopaba, aluga uma casa à beira-mar e arranja um emprego como professor de natação, além de acabar perguntando pelo caso do avô morto e sem corpo.

O nadador tem um problema neurológico incomum que o incapacita de reconhecer rostos, inclusive o seu, o que acaba fazendo com que ele tenha que se relacionar com os outros de maneira diferenciada. Por sorte, o rosto não é o único modo de reconhecer alguém, se apegando a detalhes únicos, o nadador acaba se envolvendo com uma garçonete, seu filho e sua mãe – uma mulher que diz ver o futuro em sonhos. A maior parte das pessoas acha estranho que alguém vá para uma cidade sozinho e não tenha alguma coisa por trás disso, mas o fato é que ele realmente vai até Garopaba viver na praia, treinar e correr na areia, não há uma busca pelo real história do avô, isso e muitas outras coisas são decorrências de tentativas de se descobrir. Sem face para si mesmo, deixa a barba crescer porque é assim que o seu avô, que o pai dizia ser a sua cara, era, acaba criando uma rotina e transformando a cadela Beta em uma amiga inseparável, procurando viver por si mesmo, sem pensar no passado, onde o irmão mais velho fica com a namorada ou pensar num futuro que ele não pode determinar. Narrado em terceira pessoa pelo ponto de vista do nadador, exceto quando em notas de rodapé há conversar/pensamentos de outras pessoas da trama, o livro flui de forma natural e arrebatadora, não saindo em nenhum momento da ficção da vida real para algum tipo de fantasia maravilhosa, seguindo um fluxo que nos leva a conhecer duas lendas de Garopaba, cada uma à sua maneira, transformando um nadador num ícone municipal, assim como fora o avô, mas com as suas características, com a sua singularidade que em momento nenhum é retirada.

Daniel Galera fez um trabalho incrível em escrever um livro com esse tanto de informação em 400 páginas que são de leitura fácil, mas não simplista. É uma história que vale a pena conhecer.

Persuadir uma pessoa a não seguir o coração é obsceno, a persuasão é uma coisa obscena, a gente sabe do que precisa e ninguém pode nos aconselhar. O que eu vou fazer está decidido há muito tempo, antes de eu próprio ter a ideia.

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