perdão, leonard peacock

by livraisse

Escrito por Matthew Quick. Editora Intrínseca, 222 páginas. Traduzido por Alexandre Raposo.

Escrito por Matthew Quick. Editora Intrínseca, 222 páginas. Traduzido por Alexandre Raposo.

Escrito por Matthew Quick (de O Lado Bom da Vida, que não me agradou tanto assim) e dono de uma premissa muito interessante, Perdão, Leonard Peacock me surpreendeu de diversas formas e nenhuma delas é negativa. Leonard é um jovem que sofreu praticamente a vida toda – exatamente dezoito anos na data da narrativa em primeira pessoa – e que decide matar Asher Beal e depois cometer suicídio, tudo isso com uma pistola P-38, uma medalha nazista de seu avô.

A história começa a partir de seu plano, mas antes de colocá-lo em prática, é preciso entregar quatro presentes. Começando sua jornada por Walt, seu velho vizinho apaixonado por filmes de Bogart e cigarros.  Apesar de Walt ter notado o comportamento estranho de Leonard pela manhã, isso não impede que ele continua sua jornada. O segundo presenteado é Baback, descendentes de iranianos e que, assim como Leonard, já sofreu nas mãos de Asher Beal. Baback e Leonard nunca foram realmente próximos, mas depois que Peacock o defendeu de Asher e seus comparsas e descobriu o talento do antigo garoto franzino, pequeno e iraniano para o violino, houve uma espécie de ligação entre eles. O terceiro presente é para uma pessoa um tanto importante para Leonard, seu professor de Holocausto, Herr Silverman – o único professor que realmente se importa com os alunos, não somente com as pessoas que têm que assistir às suas aulas. Herr se mostra um cara muito bom e que acabou ajudando e muito Leonard a lidar com coisas que ele não sabia, seu mistério por debaixo de suas mangas e seu carisma, foram uma soma perfeita para deixar Leonard aguentar mais um pouco. A dona do quarto presente é Lauren, uma religiosa fanática, da idade de Leonard, que fica no metrô distribuindo – ou tentando – panfletos sobre como Deus pode salvar a sua vida e, apesar de Leonard achar isso um tanto quanto presunçoso, ele acaba criando uma espécie de amor platônico por ela, por toda a sua falta de noção e estilo.

Mas, como acompanhamos Leonard, a princípio nada é nos dito sobre o que o fez odiar tanto Asher Beal a ponto de querer matá-lo, mas, ao decorrer do livro, ele vai nos mostrando memórias de sua infância e assim descobrimos que, antes desse ódio, havia uma amizade. Uma amizade que ele achou que duraria para sempre. Assim como achou que seu pai – velho ídolo do rock’n roll de uma música só – voltaria e que sua mãe, Linda, uma importante estilista, iria conversar sobre tudo que estava havendo naquele tempo. Mas nada disso aconteceu, então, no seu aniversário de dezoito anos, Leonard não espera uma ligação da mãe, mas espera que Walt adivinhe que o presente dado naquele dia representava o próprio aniversário.

Eu meio que prometo a mim mesmo que não matarei Asher Beal e nem a mim mesmo se ao menos Walt me disser “Feliz aniversário”, uma vez só, por mais tolo e trivial que isso possa parecer. Walt não diz, e isso me entristece, embora eu provavelmente nunca lhe tenha dito quando era meu aniversário e saiba que ele certamente diria “Feliz aniversário” se soubesse.

Pra mim, a maior surpresa foram os personagens secundários e o desenvolvimento deles, o que me lembra e muito Os Treze Porquês, de Jay Asher, personagem suicida que, ao longo da trama, volta ao passado, às lembranças mais dolorosas. Mas também lembra a vida, certo? Eu acho que é por essa razão que esse livro acabou comigo. Porque eu não estava esperando ler algo assim, só peguei por acaso num sábado de manhã para ler durante umas horas e acabei lendo por inteiro. Mas não consegui escrever depois disso, e eu sei que o que escrevo agora não chega nem perto do que o livro é, mas eu sinto como se devesse fazer agora-. Herr Silverman é o professor que eu queria ter, é o professor que pessoas como o Leonard precisa, é alguém que ajuda e que fez muito, muito mesmo. Linda é uma mãe terrível e eu adoraria no fim ter percebido que ao menos ela se importa, só não faz isso o tempo todo – por pior que isso possa soar. Walt é um vizinho incrível e Lauren uma fanática que tenta nunca sair do caminho de seus pais, nunca se questionar.

Leonard saía atrás de adultos para ver se em suas vidas como responsáveis, eram felizes; escrevia cartas – como dica de Herr Silverman – do futuro para ele mesmo, e nelas era dito como ele seria feliz e como ele conseguiria aguentar firme; Leonard tenta. E tenta muito. E apesar disso tudo, Matthew Quick consegue ir além, além de um personagem de dezoito anos deprimido e sem ninguém para notar, abordando uma porção de assuntos sérios, como bullying, abuso sexual, preconceitos e até mesmo um tantinho de nazismo e o ódio pelo diferente que ainda está enraizando no ser humano, e levando todos até o fim, nos fazendo nos perguntar sobre todos os personagens, de Linda a Asher Beal. Com notas de rodapés muitas vezes grandes, me lembrando diretamente David Foster Wallace, a história flui rapidamente e dolorosamente por 224 páginas.  O fim é algo que, pessoalmente, machuca. Mas é assim que terminam as coisas, não? Quando damos espaços para outras entrarem, esse é o verdadeiro fim. E eu espero que apenas coisas boas entrem.

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É uma história muito bonita e triste, mas senti falta de uma coisa na edição: números para contato caso você se sinta como Leonard, assim como há em Os Treze Porquês. Dá pra entrar no CVV, caso seja da preferência. (Peguei do outro livro, por isso a escassez de números).

Fortaleza (CE) – Instituto Dr. José Frota. Rua Barão Rio Branco, 1836, José Bonifácio. (85) 3255-5000.

Vitória (ES) – Centro de Atendimento Toxicológico do Espírito Santo. Rua Alameda Mary Ubirajara, 205, Santa Lúcia. (27) 3315-6001.

Rio de Janeiro (RJ) – Hospital Municipal Souza Aguiar. Praça da República, 111, Centro. (21) 3111-2600/3111-2729.

São Paulo (SP) – Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Rua Dr. Ovídio Pires de Campos, 785, Pinheiros. (11) 3069-6707.

Campinas (SP) – Hospital das Clínicas da Unicamp. Rua Vital Brasil, 251, Cidade Universitária Zeferino Vaz. (19) 3521-7141.

Goiânia (GO) – Hospital Psiquiátrico Wassily Chuc. Avenida T-3, 600, setor Bueno. (62) 3524-8287/3524-8286.

Curitiba (PR) – Associação Paranaense de Terapia Familiar. Avenida Hugo Simas, 1181, Bom Retiro. (41) 3338-6117.

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