quem é você, alasca?

by livraisse

Eu amo o jeito que John Green escreve, meio que sobre ele mesmo, meio que sobre a juventude, e ele acabou me conquistando com esse livro, por isso é tão importante assim para mim. Não me sinto preparada para escrever sobre ele. Antes de começar o-que-quer-que-seja-que-eu-vou-escrever, digo uma coisa: esse é o meu livro favorito. Eu me sinto meio estranha, um pouco mal até, em ter o que responder quando essa pergunta é feita, mas é essa a verdade, eu tenho. E é esse. Claro que eu tenho uma porção de outros que eu não trocaria por nada – nada – no mundo, mas, inconscientemente, esse é o primeiro que me vem à cabeça. Talvez “Quem é você, Alasca?” seja a minha “King’s Crossing” da literatura, não sei. Mas sei que a partir dessa reposta inconsciente e automática, é que vêm os outros. Enfim, agora não é hora pra isso, sei que não farei jus ao livro, mas eu devo tentar agradecê-lo.

Antes mesmo de abrir o livro, já tenho que falar do título (e que título!), afinal, Quem é você, Alasca? pra mim, é título traduzido perfeito – porque Looking For Alaska é um baita título -, apesar do livro nos deixar perguntas bem mais profundas do que esta, o título é muito reflexivo e intenso, afinal, quem é Alasca? É natural que personagens, quando tão bem construídos assim, acabem tomando uma vida própria, mas talvez Alasca tenha tomado mais do que apenas uma personalidade, ela pode ter tomado um pouquinho de cada leitor que se envolveu com a história, talvez haja um pedacinho (e não o melhor) dela em cada um de nós. John Green criou personagens cheios de defeitos, cheios de vontade e isso é tão real, ninguém é só coisas boas, ninguém é só coisas ruins, pessoas são pessoas e tanto Alasca quanto Miles – Gordo, Pudge – são egoístas, irritantes até!, de tão reais. Gordo sente muito auto-piedade e ele faz exatamente o que Alasca detesta e não quer nunca fazer: usar a subjetividade do futuro pra escapar do presente. Alasca é impulsiva até demais; de lua, como dito no livro. Mas eu sinceramente não vejo motivos pra não amá-los, há tanta vida neles!

Porém, antes de um Gordo, havia apenas o Miles (to go before I sleep). Miles Halter, um garoto totalmente não-popular que vivia em inércia na Flórida. Como um garoto que coleciona últimas palavras, quando lê as últimas palavras de François Rebelais, então ele decide correr atrás do seu Grande Talvez, afinal, por que esperar até a morte pra descobrir o seu Grande Talvez? Ele parte, então, para Culver Creek, ex-escola de seu pai, e é lá que ele pretende achar a resposta para sua pergunta interna. Logo no primeiro dia conhece seu colega de quarto, um baixinho chamado Chip, mas mais conhecido como Coronel, a partir dessa relação entre colegas, nasce Gordo, que mais tarde é apresentado à Alasca. A-L-A-S-C-A.

Ah, certo. Alasca, esse é o Gordo. Ele coleciona últimas palavras. Gordo, essa é a Alasca. Buzinaram o peito dela nas férias.

Alasca mostra-se forte, determinada, esperta e independente, mas, como todo o ser humano, ela não é apenas isso. Ao mesmo tempo em que Gordo está em busca do seu Grande Talvez, Alasca está atrás da saída de seu labirinto. De seu labirinto de sofrimento. E talvez Gordo estivesse certo ao pensar que quando ela disse “Vocês fumam para saborear. Eu fumo para morrer”, estava sendo sincera. Nesse ponto, Gordo já está totalmente apaixonado por Alasca, e não posso culpá-lo, ainda mais saindo sempre com o seu novo grupo de amigos: Coronel, Takumi (um japonês rapper) e, óbvio, Alasca. Com novos amigos, se é que podemos chamar assim visto que ele nunca tivera nenhum amigo antes, Gordo aprende a amar, a ser leal, a ser odiado por professores, aprende que tem um labirinto no qual todos nós estamos presos, a fugir de um cisne louco, coisas que ele nunca tinha visto antes e que nunca teria visto se não tivesse ido em busca do Grande Talvez. Apesar das coisas maravilhosas que acontecem com ele, nessa jornada, como se trata de uma história com personagens reais, apesar de fictícios, nem tudo acontece como o planejado. Todos são forçados a lidar com o inesperado e com a falta de caminhos para encontrar a saída deste labirinto.

Eu queria tanto me deitar ao lado dela, envolvê-la em meus braços e adormecer. Não queria transar, como nos filmes. Nem mesmo fazer amor. Só queria dormir com ela, no sentindo mais inocente da palavra. Mas eu não tinha coragem. Ela tinha namorado. Eu era um palerma. Ela era apaixonante. Eu era irremediavelmente sem graça. Ela era infinitamente fascinante. Então voltei para o meu quarto e desabei no beliche de baixo, pensando que, se as pessoas fossem chuva, eu era a garoa e ela, um furacão.

O livro é dividido em Antes e Depois, um acontecimento chave que muda tudo, um segundo, uma decisão e é um marco definitivo não só para os personagens, mas também pra quem está lendo. De um minuto para outro, as risadas – gargalhadas até – se transformam em lágrimas, muitas e muitas lágrimas. E é isso que faz desse livro, um livro tão especial; a realidade que ele nos apresenta pode estar acontecendo agora mesmo em algum lugar do mundo, ele não nos poupa do ruim que pode acontecer, afinal, a vida é assim.

Aí está o seu labirinto de sofrimento. Todos nós vamos passar por ele. Encontre sua saída do labirinto.

Mas será que a única saída pro nosso labirinto é esta? Rápido e diretamente? Muito provavelmente não, se várias coisas tivessem sido diferentes, não teríamos que ter lidado com o Depois que tivemos que lidar, mas há más escolhas na vida, e tudo o que podemos fazer para sair do nosso labirinto é nos entregar à busca do Grande Talvez. Creio que Alasca tinha a resposta para a pergunta de Miles como Miles tinha a resposta para a pergunta de Alasca, e talvez tivesse sido tudo diferente se eles tivessem compartilhado mais do que só cigarros, no entanto, a vida é assim. Mas ela pode ser diferente, porque, afinal de contas, não é a vida que imita a arte, e sim o contrário.

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