a verdade sobre o caso harry quebert

Eu sou uma fã enrustida de romances policiais, eu não sei muito bem que tipo de livro ler desse gênero, mas eles me atraem, todos que eu já li nesses anos, eu acabei gostando, por um motivo ou outro, eu nunca abandonei nenhum, sempre quis saber o segredo que só o autor conhecia. Claro que em vários momentos, a descoberta foi desanimadora e óbvia, mas em outros momentos, o livro cumpre a promessa e nos mantém atento. Acho que os dois casos podem descrever A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert, que tem como plano de fundo do mistério, um romance entre um autor de trinta e quatro anos e uma jovem de quinze anos. Nolla. a jovem de quinze anos, sumiu do município de Aurora há trinta e três anos, na época, sem muitas pistas, a busca pelo seu paradeiro logo cessou. Após trinta e três anos, restos mortais de Nolla são encontrados no jardim do já velho escritor, Harry Quebert, antigo namorado secreto de Nolla. Terem desenterrado este crime, faz com que Harry seja o maior suspeito – afinal, a menina acompanhava a sua obra-prima em manuscrito com uma dedicatória – levando Marcus Goldman, o melhor amigo de Harry, à Aurora para desvendar essa história.

O ponto fraco do livro (realmente fraco, só pra constar) são os diálogos ou a fraqueza com que os personagens foram escritos para pensarem em dizer algo tão piegas e irritante. Os personagens são superficiais e eu me senti imensamente feliz por não ter tido que conviver com Nolla em todas as páginas do livro, voltas ao tempo são frequentes e isso é desconcertante, há muitas partes que se repetem e os diálogos são realmente desconfortáveis, mas há o outro lado, uma escrita tão fácil e conquistadora que não importa a fraqueza dos personagens e de seus diálogos, mesmo com Marcus Goldman narrando, eu devo continuar lendo, mesmo quando ele é um personagem um tanto vazio, a vontade pessoal de saber o que me aguardava era maior. De fato, algumas vezes até me esquecia da breguisse do texto e me concentrei na fluidez dele, realmente acho que Joël Dicker tem algum futuro como autor, mas espero que sem romance da próxima vez, ele é patético nessa parte.

O livro é escrito por um escritor ficcional que tem como guia Harry Quebert e sua obra-prima (As Origens do Mal, e pelo que li no livro, esse é um dos livros que não conseguiria se tornar uma obra-prima no século XX) é um livro sobre o livro, Marcus Goldman passa por uma crise e não consegue mais escrever, fazendo-o quebrar o contrato com a editora, até se inspirar com o caso do amigo e começar a escrever um livro sobre O Caso Harry Quebert, investigando e descobrindo vários segredos da pequena cidadezinha de Aurora.
Não sei se é algum livro que indico, mas é um livro que gostei de ler, apesar dos pesares, mas não vá esperando uma Obra-Prima, na contra-capa do livro há comentários muitos pretensiosos, claro que garanto que muita gente realmente achará isso, mas é um suspense fosco, apesar de escrito de forma contagiante, o romance é besta e infantil, realmente inacreditável, mas, novamente, a escrita flui e não é fácil manter alguém entretido por quase 600 páginas, mas Joël Dicker conseguiu, pelo menos comigo.

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Uma parte de mim sempre duvidou de que eu seria capaz de manter isso por mais de um mês, é sempre assim. Eu estive de férias e não escrevi absolutamente nada publicável, como o que é publicado aqui se restringe a livros, absolutamente nenhuma palavra fora escrita sobre nada que li nos últimos dias (no último mês).
E eu admiro muito quem consegue ser tão aplicado a ponto de se cobrar e conseguir fazer com que saia algo lindo disso, mas eu ainda estou tentando. Eu achei que as férias me trariam um sossego que há tempos não sentia e até que trouxe, no começo, mas aí eu comecei a notar o quanto eu deveria me esforçar pra conseguir algo melhor no ano que vem, e isso fez com que a a pressão surgisse de novo, mas não vou falar só disso, eu meio que dediquei as minhas férias a uma distração infalível: séries. E digo séries televisivas, não de livros, há tempos eu não via tanto como vi nesse último mês. Tudo que comecei, terminei (ou pelo menos estou à par do lançamento semanal agora), e eu queria escrever sobre tudo que vi nesses últimos tempos, sobre tudo que li e sobre tudo que eu gosto de falar, mas isso seria incrivelmente grande e pretensioso, então o começo exageradamente longo pra um período em silêncio ainda maior se deve à essas coisas que eu já disse e à essas que eu deveria ter dito antes.
Aqui vai uma lista de coisas que vi e li nesses tempos, não se se tudo porque não posso cobrar uma memória muito boa e não quero tirar o especial de cada um.

férias

O começo das minhas férias de Julho foi com Kill All Enemies, escrito por Melvin Burgess, um livro que conta a história de três adolescentes (com a narrativa por capítulo na visão de cada um) problemáticos. E eu digo problemáticos eufemizando o tamanho dos problemas, de verdade são pessoas com problemas de autoestima, descontrole e ódio, nada terrivelmente novo na vida de um adolescente, mas com problemas pessoais reforçando cada uma de suas fraquezas. Quando eu comecei a ler esse livro, me lembro de ter esperado mais. Não sei mais o quê, exatamente, mais ação provavelmente não, mais drama também não deve ser, mas mais alguma coisa. Eu nem me lembro mais em como cheguei nele, como despertei o interesse por esse livro, no fim das contas gostei e achei o final interessantíssimo, mas uma parte de mim esperava algo diferente. Talvez isso, diferente das minhas expectativas, e não menor.

Depois fui para Sergio Y. Vai à América, escrito por Alexandre Vidal Porto, que se mostrou um livro único. Fui ler pela primeira vez algo relacionado a esse livro no blog Livros Abertos e isso fez com que surgisse uma urgência em mim: ler esse livro o mais rápido possível. Alexandre Vidal Porto compôs uma história real e contada de forma absurdamente sincera, na visão de um psiquiatra reconhecido que tenta entender como Sergio Y., um jovem de dezessete anos que passou por seus cuidados médicos e o dispensou, teve a vida que teve e ainda se sentiu agradecido pelo psiquiatra, mesmo que ele nunca tenha entendido de verdade o que fez tanto para o rapaz. De uma forma simples e muito bem escrita, nos mostra o caminho da mente humana, como as sensações estão ligadas com o resto do nosso corpo e como tentamos nos recompensar quando algo que fazemos está certo, mas como ficamos sem chão quando não sabemos exatamente como guiar ou como ter guiado uma pessoa, uma vida.

E então eu saltei para Laranja Mecânica, escrito por Anthony Burgess, com uma narrativa cheia de neologismo do próprio autor, que jamais autorizou nenhum dicionário, é uma história bastante conhecida por seu filme homônimo, dirigido por Stanley Kubrick. Eu sabia o que esperar do livro, obviamente, mas ler os acontecimentos, imaginar cada passagem e o sentimento disso é diferente de ver, obviamente, o que me forçou a continuar. É um ótimo livro, lê-lo só me fez ter ainda mais certeza de que Kubrick dirigiu – novamente – outra obra literária brilhantemente. o Alex do livro é tão doentio e infantil que chega a parecer exagero a idade que ele tem, os pensamentos que ele nos narra são de todo uma loucura sórdida e o desejo que ele tem em ver o mal acontecer, em participar disso. Quando se propõe à cura, ou quando se diz arrependido, em todos os momentos o convencimento que ele cria sob ele mesmo, de que ele é o rei, se sobrepõe. Uma distopia perturbadora até, mas incrivelmente bem escrita.

Novamente fui para à literatura nacional, indo para A Maçã Envenenada, escrito por Michel Laub, o segundo da sua trilogia de efeitos psicológicos provenientes de uma tragédia/catástrofe, o primeiro sendo Diário da Queda (lido, mas nunca resenhado). A Maçã Envenenada tem como plano de fundo um show do Nirvana no Brasil em 1994, apesar de ser contado de um futuro incerto, passando por diversos momentos da vida do personagem principal não-nomeado, que na época do show vivia um romance com Valéria, uma jovem com seus exageros e particularidades, mas também vivia sua vida interrompida por um chamado do governo, no qual fora destinado a ser militar. Indo por uma linha que não segue o ritmo cronológico, passando por uma leve biografia de Kurt Cobain, vocalista do Nirvana que cometeu suicídio um dia antes de Immaculée Ilibagiza ser obrigada a abandonar sua vida e viver num banheiro por noventa dias até o genocídio de Ruanda cessar. Um com tudo para ser feliz, mas completamente insatisfeito e atormentado, a ponto de tirar a própria vida, e outra com tudo para não dar certo, mas superando todos os obstáculos de forma vitoriosa. Michel Laub nos conta essas histórias em meio ao desenrolar de Valéria e o narrador e essa é a parte mais genial do livro, o fato de terem havido outras histórias dentro de uma vida, dentro de fatos que marcaram a adolescência de um rapaz comum. Uma história muito bem contada e já estou quase adepta ao jeitinho Michel Laub de narrar – um ótimo jeito, pelo visto.

Indo para uma quase biografia, que tá mais para uma narrativa incansável de acontecimentos importantes dos últimos semestres no cenário mundial: Os Arquivos Snowden. Eu tenho um carinho imenso por Edward Snowden, por isso meu interesse em ler este livro sempre existiu, até que eu não pude resistir e o trouxe pra casa (eu poderia falar muito desses motivos, mas estou me controlando). Luke Harding nos conta a verdadeira história por trás dos noticiários de julho de 2013, o rosto e a vida por trás do delator mais procurado do mundo moderno, passando por momentos importantes da vida de Edward Snowden, nos mostrando o seu relacionamento com a família e a namorada – agora deixados para trás na sua antiga terra – e como tudo que aconteceu antes da revelação, acabou o convencendo que a saída era a sinceridade, afinal, quem quer viver num mundo vigiado 24 horas por dia? Contando com a ajuda de um jornalista autoexilado no Brasil, Gleen Greenwald, e com o jornal britânico, The Guardian, acompanhamos o trajeto dos pen drives com informações secretas da NSA e provas que eles haviam tido acesso à muito mais do que só assuntos protecionistas, mas também assuntos privados de países amigos. Nos mostra como um jornalismo sério pode nos ajudar ao mostrar-nos a verdadeira face de algo que nos vigia.

E, para não ficar um vazio enorme em séries que acompanhei nos últimos 50 dias (me dei conta que já faz tudo isso, ugh) aqui vai a melhor série que eu já vi: Breaking Bad. Acho que não é um nome novo pra ninguém, afinal, uma série com tanta qualidade teve reconhecidos prêmios, fãs e publicidade, mas foi nova pra mim, apesar de sempre ter ouvido falar, nunca realmente havia despertado meu interesse e – talvez – só tenha vindo a me intrigar de verdade (ou a fazer com que eu tivesse consciência de que, sim! eu veria a season finale desta série, que não seria uma daquelas começadas-jamais-terminadas, lá pra segunda temporada. Me desculpa Vince Gilligan, agora reconheço a maestria de cada um dos episódios) quando minha amiga disse pra eu ver. Aí foi o fim, ou melhor, o início da minha nova fase de séries extremamente bem produzidas e com uma qualidade que eu tenho raiva e inveja. Não vou falar muito dessa série porque o medo de dizer algum spoiler a qualquer um que venha a ler isso é enorme, então vou dizer o básico. Metanfetamina, a praga dos Estados Unidos, o crack norte-americano. Um professor de química com um filho e uma esposa grávida. Um câncer no pulmão. Um ex-aluno viciado em drogas. O tratamento quimioterapêutico absurdamente caro. Metanfetamina pode ser feita em laboratório.
Uma história brilhante e que fora esculpida de forma absurdamente genial, de verdade, uma das melhores coisas que eu já vi, a melhor série. A profundidade dos personagens, a sensibilidade e o sangue frio de cada um. A dor e o talento estampado no rosto de cada pessoa que se envolveu com esta série. Brilhante, de verdade. Foi um tempo gasto exclusivamente para sofrer – e como sofri vendo isto – e me admirar com o brilhantismo do roteiro e das atuações. Esta é a maior indicação daqui, sem dúvidas. O que mais mexeu comigo (e mais recentemente também) e o que mais me comoveu. Por favor, se alguém leu até aqui, dê uma chancezinha a essa série.

E eu juro que tentarei ficar aqui, mais por um desafio pessoal do que por qualquer outra coisa. Eu gosto de escrever isso aqui e muito mais, mas é essa parte que consigo divulgar sem neuras, então espero que assim continue por muito tempo.

como dizer adeus em robô

como dizer adeus em robô

Escrito por Natalie Standiford. Editora: Galera Record; 339 páginas. Traduzido por Fabiana Colasanti.

Escrito por Natalie Standiford, Como Dizer Adeus em Robô me surpreendeu de toda a forma possível. Comprei em uma das vezes que fui comprar um presente e o meu ego se sentiu na necessidade de me dar um presentinho, aí surgiu pelo correio com uma capa incrível e acabamentos em um rosa maravilhoso. Eu não sabia onde colocar aquele livro depois que minha estante fora construída e se mostrou tremendamente inútil na tarefa de guardar todos os meus livros, aí o coloquei junto com os meus favoritos. Não estava esperando um livro bom – ou ruim – porque eu não estava esperando nada. Um dia, depois de ler O Lobo da Estepe decidi que precisava ler algo leve e que me deixasse presa na história, por algum acaso, o peguei e comecei a minha jornada pela vida de Bea e Jonah (que, admito, durou pouquíssimo, li o livro em horas).

Nunca tinha ouvido falar da Natalie nem do seu livro. Verdade! Nenhuma resenha nem nada. E olha que eu sou uma viciada por resenhas. Mas eu acho que foi melhor assim, nenhuma palavra sobre um livro que realmente tirou as minhas. Antes de começar a resenha – hoje eu estou completamente para digitar, me desculpem! –, tenho que dizer que essa edição da editora Galera Record é incrível. Sério. Tem muitas capas, títulos e diagramações por quais sou apaixonada, mas essa é maravilhosa demais para não ser dita. Fora o aspecto lindo do livro, Standiford conseguiu colocar numa história com um pouco mais de 300 páginas uma história incrível com as medidas certinhas de melancolia e graça, me fez sentir vontade de rasgar o livro quando eu o acabei. Mas leve isso como um elogio.

Beatrice é uma jovem de dezesseis anos que tem uma forma muito infantil, fora criada pelos pais que estavam sempre em constante mudança de cidade. Talvez por isso que Bea não tem amigos, talvez por isso que tenha aprendido a se controlar tanto, a ser tão fria. Sua mãe – e única amiga – a chama de robô, uma garota sem sentimentos feita na verdade de metais e ligações elétricas, apesar de Bea se incomodar com isso, acaba acreditando que a melhor forma de se dar bem na vida é mantendo essa certa distância das pessoas, sendo fria e tentando controlar as coisas.

Quando a família de Beatrice se muda e ela tem de encarar o último ano em uma escola particular, se vê sozinha. Sua mãe já não está mais nos eixos, chorando por qualquer coisa, colocando galinhas por toda a parte. Obcecada o tempo todo e sempre à um triz de explodir. Bea vai à escola e segue o seu cronograma monitorado e esquematizado, falando pouco e com saudades da rádio da cidade anterior. Logo no primeiro dia ela conhece Anne, filha de um professor universitário – como o seu pai – e ela conta brevemente a história do Garoto Fantasma, ou Jonah.

Jonah fora apelidado como Garoto Fantasma na sétima série, a brincadeira era levada tão a sério que fizeram um funeral para ele, o motivo, assim como todos os motivos para apelidar alguém, são tolos e cruéis. O menino cresceu sozinho e às vezes ouvindo “Ah Um f-f-f-fantasma” quando passavam ao seu lado. Bea acha tudo isso uma crueldade e acaba cumprimentando o menino que, como gratidão (ou carência) apresenta à ela um mundo totalmente novo. Night Light Show é um programa de rádio que apenas uns velhos e Jonah conhecem, as pessoas ligam para lá e conversam com Herb – o locutor –, reclamam um pouco, ouvem umas músicas e vão dormir. O programa de rádio os une de uma forma fraternal, Jonah diz não querer uma amiga nem nada de Bea, mas há alguma coisa nisso, um universo de mistério por baixo de cada um dos personagens. Jonah perdeu a mãe e o irmão gêmeo e deficiente em um acidente de carro, por isso o fantasma não é ele, ele é irmão de um fantasma. Seu pai e frio e não demonstra qualquer tipo de carinho por Jonah, nem consegue se mostrar triste pela perda da mulher e de um filho. Ele é apenas um rico bom advogado.

Como eu já disse, foi um livro que eu realmente gostei. O fato de Beatrice ser tão fria, controlada e confusa, por Jonah ser tão cheio de carência, saudades, mágoa e raiva; eu não sei exatamente o porquê. Nenhum personagem nos é apresentado de forma completa, não há um conhecimento total, é como um eclipse parcial, não conseguimos enxergar a totalidade de nenhum de seus personagens, nem dos excêntricos do Night Light Show, nem da nossa narradora-robô. E, devo dizer, que talvez tenha sido isso que me chamou a atenção, o fato de não ter sido oferecido de bandeja personagens detestáveis e reais. O fato de ter reconhecido muito nos piores traços de Bea, ou ela ter reconhecido em Jonah seus traços. A semelhança contrastando um universo complexo de diferenças. Um amigo que nunca esteve ao lado de Jonah ou de Bea, mas que conseguem se encaixar de uma forma confusa. Nenhum dos dois é um cabeleireiro islandês, mas eles tentam chegar à alguma coisa próxima disso.

Os dois mudam um pouco os hábitos, nenhum sabe exatamente como é ter um amigo, mas juntos vão aprendendo e moldando a realidade que são obrigados a viver. O fim é heart-breaking. Poucas vezes vi um fim tão duro e cruel quanto esse. Genial, mas cruel. O mistério de Jonah que faz com que ele seja mesmo uma espécie de fantasma, Bea sai da sua concha dura e impenetrável para um mundo doloroso. Ela nunca será uma cabeleireira islandesa, mas também não é uma garota-robô. E esse é o ponto principal. Pena que Jonah ainda se coloque como Garoto Fantasma. Mas isso acontece na vida real. E é por isso que não somos cabeleireiros islandeses – as pessoas mais felizes do mundo –, mas estamos sempre tentando. Natalie Standiford escreveu maravilhosamente e, apesar do seu fim destruidor, a vida real é assim. Dói, mas é incrível.

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a culpa é do young adult?

À essa altura, é quase desnecessário tentar explicar a referência do título à alguém, a maioria conhece, a maioria ama. Iniciei no mundo de John Green com Quem é Você, Alasca? (um dos meus livros favoritos, por sinal) lá em 2010, na época ainda não havia Hazel e Gus, na época era o único livro traduzido pro português. Os livros do John Green acabara criando uma espécie de clube de novos leitores, o gênero Young Adult agora está em exposição na livraria da minha cidade, antes ocupada por gêneros de auto-ajuda. Há muitos, muitos e muitos livros na mesma linha Young Adult por aí, muitos não traduzidos, muitos nacionais, muitos nas livrarias de todos os lugares, sempre houve, no entanto, temo em dizer que John Green abriu as portas para muitos se envolverem nesse gênero, acho que ele abriu as portas para mim.

Há uma semana saiu um artigo onde a autora criticava toda a glória do Young Adult dizendo que os Adultos – os crescidos e que amadureceram – mereciam mais que livros bobos escritos para adolescentes bobos. Eu não poderia discordar mais, depois de ler um post no blog So Contagious, eu decidi que tentaria pelo menos escrever o quanto esse gênero pode ajudar. Não cresci lendo Harry Potter – o que me incomoda e muito, eu adoraria ter ficado esperando pela minha carta de Hogwarts que jamais viria (estou tirando do atraso agora, mas ainda assim…) –, não li Meg Cabot quando tinha treze anos, só fui ler O Diário da Princesa aos dezessete. Sempre fui fiel aos filmes adolescentes estrelados por Amanda Bynes ou Lindsay Lohan, à magia de Sabrina e suas tias e à doçura fofa da Hilary Duff na pele de Lizzie McGuire, mas eu não cresci lendo o que eu cresci vendo. Me lembro de na primeira série ganhar uma espécie de certificado por ter lido muito na biblioteca da escola, mas eu não lembro muito, me lembro da Bruxa Onilda e de uns livros grandões, grandes demais para a bolsa de qualquer criança com oito anos. E eu queria voltar no tempo e me entregar uma cópia de Harry Potter e me obrigar a ler, por que ninguém nunca fez isso? Eu devo ter lido muita coisa que não entendi na época e que pretendo reler, pra ver se entendo, eu li Os Miseráveis tão nova que me irrita, eu queria ter crescido com Harry Potter e ter tido acesso à mais Young Adults do que eu tive aos treze anos. Por que esse é um gênero tão discriminado? Pelo quê, exatamente, as pessoas temem?

young adult

tenho orgulho em dizer que essa não é nem metade da minha coleção young adult (mas é o que cabe na minha mini-estante virados para a frente).

Já li um montão de coisas a respeito de “Young Adult não ser literatura”, nesse caso, te pergunto, o que é literatura? Meu professor favorito de Literatura () disse em sua primeira aula que tudo impresso é literatura, que muda o gênero, mas a literatura está ali. Concordar com ele, ou não, não é exatamente a questão, o ponto é que as pessoas querem filtrar os gêneros que as pessoas lêem, elas não querem dar o direito às pessoas a escolherem o que vão ler – ou não. Por que é visto tão erroneamente trocar Dostoiévski por John Green? A troca não é eterna, ler um gênero não te impede – nem vai impedir – de ler todos os outros. Sair de A Cidade e as Serras (que está sempre presenta na lista de leituras exigidas pelo vestibular) e ir para Eleanor & Park não faz de você nada além de humano, um humano que escolhe o que vai ler e quando vai ler. Isso sem levar em consideração que ler um livro exigido pelo vestibular pede muito mais – e enerva muito mais – do que ler um bom Young Adult. Sem entrar nesse tópico, o que é bom, então? Ver apenas filmes do Bergman e nem saber quem foi John Hughes? Saber de cor poemas da Sylvia Plath enquanto não se sabe nada sobre Regina George? Se é isso que faz alguém feliz, que o faça, mas por que o preconceito com o que é feito atualmente? Por que os Beatles não podem ser comparados com ninguém, enquanto Justin Bieber, One Direction e Backstreet Boys são a mesma coisa?

Eu tenho essa pequena teoria meio que formulada, meio que inacabada, que tenta provar que uma porção grande das pessoas tenta levantar uma casa em bases firmes, o clássico dá mais segurança, nada é clássico à toa. Estou de acordo, mas por que o preconceito com a descoberta do novo? Por que leitura não pode ser também entretenimento? Eu não seria a pessoa que sou agora se não fosse a minha eu de 2010 se apaixonar por Orgulho e Preconceito (o filme de 2005) e ir atrás do livro, mas ficar encantada com uma capa bonita e com o título Quem é Você, Alasca? e levar os dois. Ler o que se quer, não faz mal; ler clássicos e ter noção da importância que eles têm para uma porção de coisas atuais, é incrível. Conhecimento é algo que não deve ser negado, ser apaixonado por um gênero e não invadir nenhum outro, é covardia.

hermann hesse

Bom, o título já sugere que eu vá falar do autor e não de uma obra apenas, isso se deve à minha recente leitura d’O Lobo da Estepe, mas que antes de ser concretizada por completo, teve a presença de Sidarta, uma outra obra do ganhador do Nobel de Literatura, Hermann Hesse. Enquanto eu lia O Lobo da Estepe, fui recomendada a ler primeiro Sidarta, que essa seria uma maneira melhor de eme introduzia às obras de Hesse, e assim o fiz.

Sidarta

Escrito por Hermann Hesse. Editora: Record; 175 páginas. Traduzido por Herbert Caro.

Sidarta é a história de um homem em busca da liberdade espiritual, filho de brâmanes, sempre teve acesso à educação e sempre se destacou entre os demais, no entanto, falta a ele alguma coisa e juntamente com seu amigo fiel, Govinda, vai em busca dessa liberdade, do seu Eu perfeito. Depois de algum tempo, ele conhece outro Sidarta, Buda, que conseguiu chegar ao nirvana; sendo essa uma criatura única e um acontecimento, Sidarta resolve continuar sua jornada pelas terras indianas, peregrinando e jejuando, chega até uma floresta e conhece Maya. Ela dá a Sidarta todos os excessos em matérias, mas isso não faz com que ele se sinta completo, faz com que ele queira morrer.

O livro é bem fácil e contém uma porção de filosofia budista que Hermann Hesse aprendeu quando fora a Índia, anos antes de escrever o livro, colocando personagens como metáforas, dando a um personagem toda uma vida e uma carga relacionada ao Karma. Sidarta faz com que seu ego consiga sentir tudo num “Om”, sua vida e seu sofrimento numa crença.

Foi nessa hora que Sidarta cessou de lutar contra o Destino. Cessou de sofrer

O Lobo da Estepe

Escrito por Hermann Hesse. Editora: Record; 252 páginas. Traduzido por Ivo Barroso.

O Lobo da Estepe é a história de Harry Haller (H.H., assim como Hermann Hesse, seria essa uma dica do seu alter-ego?), um quase cinquentão, infeliz e que se sente o tempo todo deslocado da sociedade da época (1927), se sentindo quase sempre em conflito consigo mesmo, após receber um “tratado do lobo da estepe” crê que dentro dele há um humano e um lobo, e sempre que um está dominando mais, o outro quer o poder, por isso está numa constante guerra com a sua própria alma.

Por ter passado a maior parte da vida assim, sofrendo, Harry acha que a saída para isso é aos cinquenta anos cometer suicídio, velho e cansado, sem fé no amor ou que as coisas possam ser mais fáceis, vai vivendo com seus livros e vícios até o encontro do Circo Mágico – só para os loucos, só para os raros. Entrada ao preço da razão. E com esse encontro, também conhece Hermínia. Com o despertar do novo, Harry consegue ver uma porção de coisas que não achava ser capaz de notar, aprender a rir é aprender a viver.

O personagem vivido por Haller vive num infindo sofrimento onde a burguesia corrói, mas é necessária; onde desapegar do velho é dar abertura ao novo e, muitas vezes, perigoso. Com a impressão que uma outra guerra está por vir, Harry vive uma infinidade de coisas quando achou que já não fosse mais capaz de socializar. Hermínia mostra-se uma alma em duelo assim como Harry, mas com um jeito diferente de lidar com isso, os personagens são tão reais que talvez seja por isso todas as especulações sobre o alter-ego de Hesse. O Lobo da Estepe não é um livro fácil, mas creio que indispensável. Hermann Hesse escreveu uma obra atemporal e maravilhosamente triste.

barba ensopada de sangue

barba

Escrito por Daniel Galera. Editora: Companhia das Letras; 424 páginas.

Depois de tanto ansiar pela leitura de Barba Ensopada de Sangue, escrito por Daniel Galera, termino uma semana com um livro incrível e que me foi demorado a digestão. O livro foi um dos mais comentados de 2012 e, atualmente, há traduções em várias línguas. Daniel Galera conseguiu escrever um livro que não nos fala nem o nome do personagem principal, dosando – incrivelmente – entre o mistério e a angústia, nos mostrando uma porção de personagens reais e imersos em defeitos.

O personagem sem nome é chamado quase o tempo todo por nadador, antes de mudar-se para Garopaba e entrar num isolamento geográfico e psicológico, o seu pai o avisa que irá cometer suicídio, não o faz para ser impedido, entre conversas e tentativas de entender o porquê disso, o pai do nadador conta a ele a história nunca antes contada sobre o seu avô, morto numa pequena cidade litorânea de Santa Catarina e faz somente um último pedido: que sacrifique a sua cachorra Beta. Deixando os problemas para trás com o irmão, a cunhada e a mãe, muda-se para Garopaba, cidade onde o avô fora assassinado anos antes, quando ainda era uma vila de pescadores, com a cachorra Beta, descumprindo o último pedido do pai. Sozinho em Garopaba, aluga uma casa à beira-mar e arranja um emprego como professor de natação, além de acabar perguntando pelo caso do avô morto e sem corpo.

O nadador tem um problema neurológico incomum que o incapacita de reconhecer rostos, inclusive o seu, o que acaba fazendo com que ele tenha que se relacionar com os outros de maneira diferenciada. Por sorte, o rosto não é o único modo de reconhecer alguém, se apegando a detalhes únicos, o nadador acaba se envolvendo com uma garçonete, seu filho e sua mãe – uma mulher que diz ver o futuro em sonhos. A maior parte das pessoas acha estranho que alguém vá para uma cidade sozinho e não tenha alguma coisa por trás disso, mas o fato é que ele realmente vai até Garopaba viver na praia, treinar e correr na areia, não há uma busca pelo real história do avô, isso e muitas outras coisas são decorrências de tentativas de se descobrir. Sem face para si mesmo, deixa a barba crescer porque é assim que o seu avô, que o pai dizia ser a sua cara, era, acaba criando uma rotina e transformando a cadela Beta em uma amiga inseparável, procurando viver por si mesmo, sem pensar no passado, onde o irmão mais velho fica com a namorada ou pensar num futuro que ele não pode determinar. Narrado em terceira pessoa pelo ponto de vista do nadador, exceto quando em notas de rodapé há conversar/pensamentos de outras pessoas da trama, o livro flui de forma natural e arrebatadora, não saindo em nenhum momento da ficção da vida real para algum tipo de fantasia maravilhosa, seguindo um fluxo que nos leva a conhecer duas lendas de Garopaba, cada uma à sua maneira, transformando um nadador num ícone municipal, assim como fora o avô, mas com as suas características, com a sua singularidade que em momento nenhum é retirada.

Daniel Galera fez um trabalho incrível em escrever um livro com esse tanto de informação em 400 páginas que são de leitura fácil, mas não simplista. É uma história que vale a pena conhecer.

Persuadir uma pessoa a não seguir o coração é obsceno, a persuasão é uma coisa obscena, a gente sabe do que precisa e ninguém pode nos aconselhar. O que eu vou fazer está decidido há muito tempo, antes de eu próprio ter a ideia.

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penelope

Escrito por Marilyn Kaye, Penelope é um conto de fadas moderno e que tem um filme com o mesmo nome estrelado por Christina Ricci, Reese Witherspoon e James McAvoy. Traduzido por Ana Ban, editora Record.

Há cento e cinquenta anos do momento em que a história se passa, um dos Wilhern apaixonou-se por uma criada, Clara, ajudante na cozinha. O amor deles nunca foi até o altar, quando Ralph contou para a sua família quem era a mulher de seus sonhos, ninguém o ouviu, fazendo assim com que ele desistisse de Clara e com que Clara cometesse suicídio. Quando a mãe dela, uma bruxa poderosa e conhecida, fica sabendo, joga uma maldição na família Wilhern. A próxima menina a nascer teria com ela um nariz de porco e isso só seria desfeito com o amor de um igual.

Depois de tanto tempo com medo da maldição dar certo, os Wilhern foram agraciados com uma menina e aí foi dado um ponto final à maldição. Porém, quando Jessica se casa com um Wilhern, a maldição não é nem citada. Até que o seu bebê nasce com um focinho de porco.

Penelope é esse bebê. Depois de vinte e cinco anos e sete tentando arranjar um marido para a filha, Jessica e sua ajudante, Wanda, decidem que o melhor pretendente é, sem dúvida, Edward Vanderman Junior. No entanto, assim como os outros centenas de aristocratas, ele também fica em pânico e foge de Penelope. E seria apenas mais um, se não fosse o caso de terem deixado ele fugir sem assinar o contrato de segredo sobre Penelope que para o mundo está morta.

O livro é muito fofinho e tudo o mais, quer dizer, é um conto de fadas moderno onde a suposta princesa tem o nariz de porco, não é perfeitamente adequada e linda apenas esperando o amor de sua vida. Ela espera, sim, e é por isso que não se importa em se casar com um idiota feito Edward, porque quer se ver livro do rosto do seu tataravô, como diz sua mãe. Até que o próprio Vanderman, juntamente com um repórter que perdeu um olho indo atrás do bebê-porco quando levou uma colherada de Jessica Wilhern, levam à vida de Penelope um tal de Max Campion, um cara de família rica que perdeu tudo nos jogos. A história é costurada a partir daí, Max Campion sendo pago para tirar uma foto da garota-porca.

Max Campion, ao contrário de Edward, vê uma Penelope incrível e não se importa com o seu nariz, pois vê muito mais que isso, mas, surpreendendo a todos e não correndo quando a vê, ainda assim, ele não aceita a se casar com ela. O que leva Penelope a sair de casa procurando por vida, a vida que nos vinte e cinco anos de sua existência fora poupada. Nessa sua jornada, ela conhece Annie, uma garota com uma vespa que mostra a ela o mundo como nunca fora mostrado antes.

A história não é surpreendente e nem algo que eu mandaria minha melhor amiga ler a-g-o-r-a (eu estou mandando todo mundo ler Aristóteles e Dante!), mas é definitivamente uma história que dá pra passar o tempo e se divertir e até fazer uns barulhos de fofurinha quando o cara do cabelo desgrenhado aparece. E, no fim das contas, Penelope nos mostra que sempre foi a mesma e que essa é a melhor coisa que ela pode ter.

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aristotle and dante discover the secrets of the universe

aristotle and dante

Escrito por Benjamin Alire Sáenz. Editora: Companhia das Letras, SEGUINTE; 393 páginas. Traduzido por Clemente Pereira.

Recomendado por uma grande amiga, Aristotle and Dante Discover the Secrets of the Universe, escrito por Benjamin Alire Sáenz, não teria sido lido por mim tão cedo por não saber do que se tratava, mas uma recomendação mudou tudo e eu agradeço demais por tê-lo lido. E tê-lo lido agora. Foi a escolha perfeita. O livro foi lido por mim em inglês, mas já possuiu tradução pela Companhia das Letras (ou Seguinte).

A história começa com Aristóteles reclamando de uma música que está no rádio. Ari, como gosta de ser chamado, é um rapaz de quinze anos deprimido, que sempre guardou tudo para si mesmo e não consegue se desprender desse costume. Seu pai tem que lidar com os próprios fantasmas de guerra, sua mãe sempre está ao seu lado, mas ninguém da sua família, nem suas irmãs mais velhas, citam um nome. Bernardo. Seu irmão mais velho que está na prisão. Ele deixou de existir para a família de Aristóteles, mas não para ele. Sem um rosto, sem voz e sem história, Ari se vê o tempo todo querendo descobrir quem é, mas acha que isso seja impossível sem saber quem é seu irmão, sem saber quem é sua família. Esse é um de seus segredos.

I was fifteen. I was bored. I was miserable.

Ari não sabe nadar. E é aí que surge Dante, um rapaz de quinze anos também que, ao ver Aristóteles na piscina pública de El Paso, se oferece para ensiná-lo a nadar. Dante é alguém que, assim como Aristóteles, não gosta do seu nome, mas Ari acha que suas semelhanças param por aí. Dante é confiante, esperto e autêntico, gosta de ler poesia, de nadar e dos pais, Ari se vê um bobo que só consegue pensar no irmão e que não consegue descobrir quem é. Mas entre diferenças e tantas semelhanças, surge uma amizade. Ari nunca teve amigo, nunca teve um melhor amigo e, apesar de todos gostarem de Dante, ele aprende o significado de amizade junto com Aristóteles, cada um ao seu tempo. E talvez esse seja outro segredo, o tempo de cada um.

A história, que se passa nos anos 80, é maravilhosa. Benjamin conseguiu escrever um livro incrível onde o México e os Estados Unidos se encontram, onde há feridas de guerra e presos que são isolados da família. Ari e Dante com quinze anos no começo da história e dá pra acompanhar o amadurecimento, a vergonha e o medo que eles sentem de serem eles mesmo. O medo de decepcionar e de não ser bom o suficiente para as pessoas que você ama, é real e é adolescente, mas é mais que isso. Bem mais.

That afternoon, I learned two new words, “Inscrutable” and “Friend”. Words were different when they lived inside of you.

Dante acaba virando um dos mistérios do universo para Ari, como alguém que vive em meio ao mundo sujo e cruel consegue não ter nada disso? Como ele pode não ter medo de ser ele mesmo? Mas Dante teme, teme decepcionar as pessoas por ser ele mesmo. Ari imagina que, se Dante o conhecesse de verdade, não gostaria muito disso. Talvez seja por isso que ele não queira melhorar o não falar, por medo de não ter ninguém ao seu lado para ouvir. Por ter encontrado sua zona de conforto sendo como o seu pai, ignorando a guerra que está dentro dele, ignorando os sonhos ruins e tentando seguir a vida com isso. Com os segredos do seu universo mantidos para ele mesmo. E talvez seja por isso que às vezes ele tem raiva, raiva por ter deixado Dante entrar na sua vida com toda a sua irreverência quando não sabe como deixar o que ele tem dentro sair. Ari sabe que fez um amigo no verão e isso o assusta. Como se todas as coisas boas que acontecessem com ele fossem boas demais para ele. Mas se arriscar por Dante não o assusta, é instinto.

If I switched the letter, my name is Air. I thought it might be a great thing to be the air. I could be something and nothing at the same time. I could be necessary and also invisible. Everyone would need me and no one would be able to see me.

O tempo todo eu só queria colocar na cabeça de Ari e de Dante que eles poderiam fazer o que quisessem, que eles poderiam querer essas coisas sem se sentirem mal por isso, mas é assim que é a adolescência, achar que temos um trilho a seguir até percebermos que somos nós que construímos. Eu me li em incontáveis partes e acredito que cada um de nós leva um pouco de Ari, o não falar, ficar sozinho e gostar disso, porque isso é seguro, em Dante por tentar ser corajoso quando as pessoas querem que você não seja você. Como eu disse, Benjamin escreveu uma história atemporal e fascinante para qualquer tipo de leitor, para todos os leitores.

O livro é maravilhoso e é uma daquelas histórias que você quer distribuir para o mundo, porque todo o mundo precisa ler. Trata de amizade e amor numa época onde descobertas acontecem o tempo todo e há coisas que você nunca saberá por completo, e o ser humano é uma delas, somos parte de um grande segredo do universo. Mas isso não significa que não há como ser feliz, porque a aceitação, o falar é o que nos liberta, é o que nos mostra os mistérios que nos prende.

I bet you could sometimes find all of the mysteries of the universe in someone’s hand.

E eu poderia mesmo falar muito mais do livro, mas eu só peço pra que, se tem alguém que esteja lendo isso, leia Aristóteles e Dante Descobrem os Segredos do Universo. Não será a descoberta de todos os segredos do universo, mas será a chave de muitas coisas. Ari e Dante encontraram amor e amizade onde não esperavam. E eu encontrei amor nesse livro.

How could I have ever been ashamed of loving Dante Quintana?

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palo alto

Escrito por James Franco. Faber & Faber Fiction. 224 páginas.

Escrito por James Franco. Editora: Faber & Faber Fiction, 224 páginas.

Escrito pelo consagrado ator James Franco, Palo Alto mostra a vida de vários adolescentes no subúrbio californiano de uma maneira bem peculiar e em pequenos contos. Eu sou louca pelo James, acho que isso deve ser dito antes de qualquer outra coisa, e com o lançamento do filme com o próprio nome do livro no dia 9 de Maio, eu decidi que tinha passado da hora de ler em pdf e deixar de esperar chegar pelo Book Depository.

Dividido em Palo Alto I e Palo Alto II, o livro conta com vários capítulos que seguem uma ordem não específica e variando o narrador. Em uma das histórias, Chinatown, onde o capítulo é dividido em mais três subcapítulos, é contada a história pelo ponto de vista de Roberto, um rapaz de dezoito anos, que vê duas garotas fumando e se interessa por uma delas, no entanto, só a outra é que se interessa por ele, uma garota oriental e nova em Palo Alto. Essa é uma das histórias mais densas do livro e o livro todo é cheio de adolescentes encrenqueiros e procurando sexo e descobertas. Eu acho que quase dá para se comparar a Bling Ring, só que a busca pela fama não era pela fama e sim por glória, mas no mundo adolescente isso pode ser resumido em qualquer coisa.

In the old days, you could duel. Emotions have been around forever. I wish I had a girlfriend. Or someone.

Outro capítulo interessante é o April, onde a garota é a narradora e acaba nos mostrando a sua vida e o seu envolvimento com o treinador, Mr B. (o próprio Franco no filme). Como é contado do ponto de vista adolescente, muitas vezes o fim de uma história acaba sendo o começo de outra e não necessariamente nos envolvendo nessa, há momentos como em American History onde um jovem tem que fazer um discurso pró e outra contra a escravidão na época de 1800, mas ele acaba usando conceitos racistas atuais, o que nos leva a pensar o quanto estamos envolvidos com isso ainda. Indo de abuso à acidentes, James Franco conseguiu fazer uma história que prende e que intriga, é um livro relativamente curto, mas que mostra bastante como essa parte da vida pode ser.

Things, shapes, folded in on themselves, . . . and if time is variable, then how do I vary it, and why do I want to? Because everything just focuses in on me and I hate it.

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perdão, leonard peacock

Escrito por Matthew Quick. Editora Intrínseca, 222 páginas. Traduzido por Alexandre Raposo.

Escrito por Matthew Quick. Editora Intrínseca, 222 páginas. Traduzido por Alexandre Raposo.

Escrito por Matthew Quick (de O Lado Bom da Vida, que não me agradou tanto assim) e dono de uma premissa muito interessante, Perdão, Leonard Peacock me surpreendeu de diversas formas e nenhuma delas é negativa. Leonard é um jovem que sofreu praticamente a vida toda – exatamente dezoito anos na data da narrativa em primeira pessoa – e que decide matar Asher Beal e depois cometer suicídio, tudo isso com uma pistola P-38, uma medalha nazista de seu avô.

A história começa a partir de seu plano, mas antes de colocá-lo em prática, é preciso entregar quatro presentes. Começando sua jornada por Walt, seu velho vizinho apaixonado por filmes de Bogart e cigarros.  Apesar de Walt ter notado o comportamento estranho de Leonard pela manhã, isso não impede que ele continua sua jornada. O segundo presenteado é Baback, descendentes de iranianos e que, assim como Leonard, já sofreu nas mãos de Asher Beal. Baback e Leonard nunca foram realmente próximos, mas depois que Peacock o defendeu de Asher e seus comparsas e descobriu o talento do antigo garoto franzino, pequeno e iraniano para o violino, houve uma espécie de ligação entre eles. O terceiro presente é para uma pessoa um tanto importante para Leonard, seu professor de Holocausto, Herr Silverman – o único professor que realmente se importa com os alunos, não somente com as pessoas que têm que assistir às suas aulas. Herr se mostra um cara muito bom e que acabou ajudando e muito Leonard a lidar com coisas que ele não sabia, seu mistério por debaixo de suas mangas e seu carisma, foram uma soma perfeita para deixar Leonard aguentar mais um pouco. A dona do quarto presente é Lauren, uma religiosa fanática, da idade de Leonard, que fica no metrô distribuindo – ou tentando – panfletos sobre como Deus pode salvar a sua vida e, apesar de Leonard achar isso um tanto quanto presunçoso, ele acaba criando uma espécie de amor platônico por ela, por toda a sua falta de noção e estilo.

Mas, como acompanhamos Leonard, a princípio nada é nos dito sobre o que o fez odiar tanto Asher Beal a ponto de querer matá-lo, mas, ao decorrer do livro, ele vai nos mostrando memórias de sua infância e assim descobrimos que, antes desse ódio, havia uma amizade. Uma amizade que ele achou que duraria para sempre. Assim como achou que seu pai – velho ídolo do rock’n roll de uma música só – voltaria e que sua mãe, Linda, uma importante estilista, iria conversar sobre tudo que estava havendo naquele tempo. Mas nada disso aconteceu, então, no seu aniversário de dezoito anos, Leonard não espera uma ligação da mãe, mas espera que Walt adivinhe que o presente dado naquele dia representava o próprio aniversário.

Eu meio que prometo a mim mesmo que não matarei Asher Beal e nem a mim mesmo se ao menos Walt me disser “Feliz aniversário”, uma vez só, por mais tolo e trivial que isso possa parecer. Walt não diz, e isso me entristece, embora eu provavelmente nunca lhe tenha dito quando era meu aniversário e saiba que ele certamente diria “Feliz aniversário” se soubesse.

Pra mim, a maior surpresa foram os personagens secundários e o desenvolvimento deles, o que me lembra e muito Os Treze Porquês, de Jay Asher, personagem suicida que, ao longo da trama, volta ao passado, às lembranças mais dolorosas. Mas também lembra a vida, certo? Eu acho que é por essa razão que esse livro acabou comigo. Porque eu não estava esperando ler algo assim, só peguei por acaso num sábado de manhã para ler durante umas horas e acabei lendo por inteiro. Mas não consegui escrever depois disso, e eu sei que o que escrevo agora não chega nem perto do que o livro é, mas eu sinto como se devesse fazer agora-. Herr Silverman é o professor que eu queria ter, é o professor que pessoas como o Leonard precisa, é alguém que ajuda e que fez muito, muito mesmo. Linda é uma mãe terrível e eu adoraria no fim ter percebido que ao menos ela se importa, só não faz isso o tempo todo – por pior que isso possa soar. Walt é um vizinho incrível e Lauren uma fanática que tenta nunca sair do caminho de seus pais, nunca se questionar.

Leonard saía atrás de adultos para ver se em suas vidas como responsáveis, eram felizes; escrevia cartas – como dica de Herr Silverman – do futuro para ele mesmo, e nelas era dito como ele seria feliz e como ele conseguiria aguentar firme; Leonard tenta. E tenta muito. E apesar disso tudo, Matthew Quick consegue ir além, além de um personagem de dezoito anos deprimido e sem ninguém para notar, abordando uma porção de assuntos sérios, como bullying, abuso sexual, preconceitos e até mesmo um tantinho de nazismo e o ódio pelo diferente que ainda está enraizando no ser humano, e levando todos até o fim, nos fazendo nos perguntar sobre todos os personagens, de Linda a Asher Beal. Com notas de rodapés muitas vezes grandes, me lembrando diretamente David Foster Wallace, a história flui rapidamente e dolorosamente por 224 páginas.  O fim é algo que, pessoalmente, machuca. Mas é assim que terminam as coisas, não? Quando damos espaços para outras entrarem, esse é o verdadeiro fim. E eu espero que apenas coisas boas entrem.

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É uma história muito bonita e triste, mas senti falta de uma coisa na edição: números para contato caso você se sinta como Leonard, assim como há em Os Treze Porquês. Dá pra entrar no CVV, caso seja da preferência. (Peguei do outro livro, por isso a escassez de números).

Fortaleza (CE) – Instituto Dr. José Frota. Rua Barão Rio Branco, 1836, José Bonifácio. (85) 3255-5000.

Vitória (ES) – Centro de Atendimento Toxicológico do Espírito Santo. Rua Alameda Mary Ubirajara, 205, Santa Lúcia. (27) 3315-6001.

Rio de Janeiro (RJ) – Hospital Municipal Souza Aguiar. Praça da República, 111, Centro. (21) 3111-2600/3111-2729.

São Paulo (SP) – Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Rua Dr. Ovídio Pires de Campos, 785, Pinheiros. (11) 3069-6707.

Campinas (SP) – Hospital das Clínicas da Unicamp. Rua Vital Brasil, 251, Cidade Universitária Zeferino Vaz. (19) 3521-7141.

Goiânia (GO) – Hospital Psiquiátrico Wassily Chuc. Avenida T-3, 600, setor Bueno. (62) 3524-8287/3524-8286.

Curitiba (PR) – Associação Paranaense de Terapia Familiar. Avenida Hugo Simas, 1181, Bom Retiro. (41) 3338-6117.